Onde o mato cresce
(No dia do aniversário de 94 anos de meu pai, escrevi) Roceiro raiz, meu pai nunca gostou da cidade. As circunstâncias da vida o tiraram do Nordeste e o deslocaram nas periferias de Brasília. Insatisfeito, toda noite ele repetia: "eu gosto é do mato". Os neourbanizados filhos pensavam: Que coisa mais atrasada! Mas ele seguia ainda mais desfiador: "Eu gosto é de pegar vaca pelo chifre, caçar mocó, arrancar toco..." Isso é coisa do passado! Ousávamos pensar, mas nunca dizer. E o tempo foi passando. E a vida nunca permitiu que ele voltasse ao seu lugar de pertencimento. E ele foi esquecendo, por hábito ou por velhice, que era do mato. E o mato foi saindo do meu pai. E por não achar onde crescer no betume da cidade Foi, silenciosamente, brotando na minha cabeça. E assim, embora tarde, eu entendi meu velho. Depois de tanta luta, Hoje eu também quero ir pro mato! Ouvir a voz do vento. Sentir o cheiro da vida em sua origem. Ver o puro breu da noite sem energia elétrica...