O amor, segundo Patativa do Assaré
Em entrevista ao pesquisador Gilmar de Carvalho, o poeta cearense Patativa do Assaré explica que também faz poesia que fala de amor. Vejamos um bonito trecho da entrevista:
“Gilmar Carvalho – Patativa gosta de poesias sociais, mas também gosta de uma poesia apaixonada?
Patativa do Assaré – É, mas, não tenho muita poesia apaixonada, não. É.. quase não tenho. Eu tenho é... só poesia... quase só poesia social. Eu tenho também poesia...
Bem no cimo do monte florescente,
em lembrança do nosso amor passado,
ainda encontra-se exposto a sol ardente
um casebre sem dono, abandonado.
Quando às vezes por lá passo chorando,
recordando da vida uma passagem,
no terreiro da choça me acenando,
me parece surgir a tua imagem.
Outras vezes eu penso estar ouvindo,
na pequena varanda da casinha,
teu cantar sonoroso, belo e lindo,
na bela entoação de uma modinha.
Penetro na palhoça com cautela,
Procurando te ver, mulher amada,
mas tudo quanto encontro dentro dela
são corujas, morcegos e mais nada!
Então, o Padre Pereira... olha, porque muita gente não sabe como é a vida da gente do sertão, isso e aquilo, viu?
Gilmar Carvalho – Tem que viver no sertão...
Patativa do Assaré – Padre Pereira disse: ‘Mas, Patativa, eu admiro muito aquele seu poema com o título O casebre, viu? Mas, veja bem, termina... assim, uma coisa... Por que é que você disse que, quando entrou na palhoça, à procura da mulher, só encontrou foi morcego, corujas e mais nada?’ Aí, eu ri e disse: Padre, o senhor quer que eu lhe diga uma coisa? Essas casas velha abandonadas pelo sertão, as aves noturnas no decorrer do dia estão escondidas ali... dali saem quando chegar a noite, que vão andar que sempre voam à noite, não é? E é por isso que eu digo: são corujas, morcegos, finalmente, as aves noturnas. É o esconderijo delas! Aí foi que ele ficou ciente, viu?”
O que atrai nesse verso de Patativa não é a apenas a beleza e singeleza da poesia popular, mas a explicação que ele dá em seguida ao entrevistador: “corujas, morcegos e mais nada”, são, exatamente, isso: “corujas, morcegos e mais nada”. Patativa nos remete ao famoso verso de Gertrude Stein: “uma rosa é uma rosa é uma rosa ”. Também lembra Alberto Caeiro (heterônomo de Fernando Pessoa) quando ele diz, no fantástico (no sentido de maravilhoso, não de fantasioso) O Guardador de Rebanhos:
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.
É aí que percebemos que os grandes poetas, populares ou eruditos, terminam se encontrando na sua arte. Porém, o mais interessante nisso tudo é que Patativa não deixa dúvidas de que “corujas, morcegos e mais nada” são “corujas, morcegos e mais nada”.
Leia o livro: Carvalho, Gilmar de. Patativa poeta pássaro do Assaré. Fortaleza: Omni Editora, 2002.
“Gilmar Carvalho – Patativa gosta de poesias sociais, mas também gosta de uma poesia apaixonada?
Patativa do Assaré – É, mas, não tenho muita poesia apaixonada, não. É.. quase não tenho. Eu tenho é... só poesia... quase só poesia social. Eu tenho também poesia...
Bem no cimo do monte florescente,
em lembrança do nosso amor passado,
ainda encontra-se exposto a sol ardente
um casebre sem dono, abandonado.
Quando às vezes por lá passo chorando,
recordando da vida uma passagem,
no terreiro da choça me acenando,
me parece surgir a tua imagem.
Outras vezes eu penso estar ouvindo,
na pequena varanda da casinha,
teu cantar sonoroso, belo e lindo,
na bela entoação de uma modinha.
Penetro na palhoça com cautela,
Procurando te ver, mulher amada,
mas tudo quanto encontro dentro dela
são corujas, morcegos e mais nada!
Então, o Padre Pereira... olha, porque muita gente não sabe como é a vida da gente do sertão, isso e aquilo, viu?
Gilmar Carvalho – Tem que viver no sertão...
Patativa do Assaré – Padre Pereira disse: ‘Mas, Patativa, eu admiro muito aquele seu poema com o título O casebre, viu? Mas, veja bem, termina... assim, uma coisa... Por que é que você disse que, quando entrou na palhoça, à procura da mulher, só encontrou foi morcego, corujas e mais nada?’ Aí, eu ri e disse: Padre, o senhor quer que eu lhe diga uma coisa? Essas casas velha abandonadas pelo sertão, as aves noturnas no decorrer do dia estão escondidas ali... dali saem quando chegar a noite, que vão andar que sempre voam à noite, não é? E é por isso que eu digo: são corujas, morcegos, finalmente, as aves noturnas. É o esconderijo delas! Aí foi que ele ficou ciente, viu?”
O que atrai nesse verso de Patativa não é a apenas a beleza e singeleza da poesia popular, mas a explicação que ele dá em seguida ao entrevistador: “corujas, morcegos e mais nada”, são, exatamente, isso: “corujas, morcegos e mais nada”. Patativa nos remete ao famoso verso de Gertrude Stein: “uma rosa é uma rosa é uma rosa ”. Também lembra Alberto Caeiro (heterônomo de Fernando Pessoa) quando ele diz, no fantástico (no sentido de maravilhoso, não de fantasioso) O Guardador de Rebanhos:
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.
É aí que percebemos que os grandes poetas, populares ou eruditos, terminam se encontrando na sua arte. Porém, o mais interessante nisso tudo é que Patativa não deixa dúvidas de que “corujas, morcegos e mais nada” são “corujas, morcegos e mais nada”.
Leia o livro: Carvalho, Gilmar de. Patativa poeta pássaro do Assaré. Fortaleza: Omni Editora, 2002.
LINDO !!!!!
ResponderExcluirQuase nunca volto ao blog. Publico algo de vez em quando. Obrigado pela visita!
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