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Para sempre

  Os quadros de fotos antigas na sala da casinha lembram o passado da família: os que foram, os que estão, como eram, como são. Os almoços de domingo todos juntos, falando de política e de saudades da roça. Reunidos na pequena sala, ao redor do velhinho, último ancestral do tempo de Lampião. Ele fala de memórias e diz que logo vai embora Mudar a foto de lugar. Quando ele partir, já não haverá casa, nem sala cheia de vozes. Será preciso erguer outra parede, novas fotografias para os velhos que logo virão. Porque antes era assim, E continuará sendo Para sempre. (Jorge Ogum)

Ou não,

A vida é encruzilhada. Não destino imutável, edipiano, mas potência, abertura, vir a ser.   Antes de olhar para trás, adiante. Antes de escolher, deixar-se ir.   O corpo sabe.   Voltar. E ir de novo, esquivar.   Antes e depois de ser o fim, recomeçar. Ou, mais uma vez, o fim do começo. Três direções que são mil e uma só: as vidas.

Sua tragédia

 Você é Édipo errante perdido parricida, regicida casado com a mãe olhos furados com as próprias mãos mas acredita que escolheu ser Você. Quem é você? Nada. a vida é sua encruzilhada.

Haicai 2

 Tropecei num haicai... Caí. Ai!

Haicai

Caminhando fiz um haicai. Caí. Ai!

Peça de Teatro Infantil (Comédia)

  Peça de Teatro Infantil (Comédia)     Operação Ursinho de Pelúcia   PERSONAGENS   Isadora Sonhadora : menina que brinca com um ursinho Beto Fake News : mentiroso compulsivo disfarçado de detetive particular Mariana Zapzap : mãe de Isadora Entregador de Pizza Repórter de TV   Abrem-se as cortinas. Isadora Sonhadora brinca com seu ursinho Platão.   Isadora Sonhadora: (cantando na melodia de nana nenê) “Dorme Platãozinho, mamãe vai te ninar! Aí que fome que eu estou, lá lá lá..... Vou fazer um bolo de cenoura. Fica aqui Platão, que volto logo!”   Ao levantar, ela deixa o urso cair debaixo da cadeira, mas não percebe.   Enquanto Isadora está fora, a TV dá uma informação urgente. Mostrando a foto do mentiroso Fake News, a repórter diz: “Atenção Muiiiiiita atenção! Fugiu da prisão o famoso mentiroso compulsivo, Beto Fake News. Ele é famoso por ter enganado todo o Brasil dizendo que a Seleção Brasileira...

Autoecografia do Eu

 (À moda de Augusto dos Anjos (pretencioso, não, né?), depois de uma provocação e mote do Enzo e do Calil) Mal saídos do ninho líquido e terno Do ventre materno já berramos Demonstrando que nada esperamos Do tempo em que temos o olho aberto A ilusão de medrar nos é por certo Inculcada sem que percebamos Mas depressa o oásis que sonhamos É apenas um trecho do deserto. E assim confundidos nesta lida Vamos vendo o fim ficar mais perto E o futuro que julgávamos aberto Se fecha para nós num poço fundo (Onde a nossa ilusão fica contida) E o choro não é mais por ver o mundo Só nos resta lamentar quão triste é a vida Pelejar e sonhar por um segundo Nascer pra morrer logo em seguida.  

Pedras, sementes e penas

 (Uma menina me falou que as coisa materiais não mereciam o seu interesse. E que em seus bolsos alguém só encontraria "pedras, sementes e penas". Belo mote, não?) Nesta vida se corre lá e cá Enquanto embranquecem as melenas E na ânsia do mundo conquistar Caem Romas, Espartas e Atenas Mas enquanto a areia sem parar Vai descendo a ampulheta numa cena A vida nos manda ir devagar E decantar para nós o puro apenas E se algo é preciso inda levar Nos meus bolsos terei coisas pequenas  Nada mais eu almejo carregar   Do que pedras, sementes e penas.

Onde o mato cresce

(No dia do aniversário de 94 anos de meu pai, escrevi)  Roceiro raiz, meu pai nunca gostou da cidade. As circunstâncias da vida o tiraram do Nordeste  e o deslocaram nas periferias de Brasília. Insatisfeito, toda noite ele repetia: "eu gosto é do mato". Os neourbanizados filhos pensavam: Que coisa mais atrasada! Mas ele seguia ainda mais desfiador:  "Eu gosto é de pegar vaca pelo chifre, caçar mocó, arrancar toco..." Isso é coisa do passado! Ousávamos pensar, mas nunca dizer. E o tempo foi passando. E a vida nunca permitiu que ele voltasse ao seu lugar de pertencimento. E ele foi esquecendo, por hábito ou por velhice, que era do mato. E o mato foi saindo do meu pai. E por não achar onde crescer no betume da cidade Foi, silenciosamente, brotando na minha cabeça. E assim, embora tarde, eu entendi meu velho.  Depois de tanta luta, Hoje eu também quero ir pro mato! Ouvir a voz do vento. Sentir o cheiro da vida em sua origem. Ver o puro breu da noite sem energia elétrica...

O Presente

 Dizem os cientistas matematicamente não existe o presente O zero entre negativos e positivos ele é tão somente Passado e futuro O que foi e o que virá, virá, virá, virá... Cansada desse eterno não lugar A mente cria o presente em três imaginários segundos Tempo necessário pra dizer lentamente “Eu te amo” Eu, no primeiro. Tu, no segundo. Amor, no terceiro. É o agora suficiente Verdadeiro (Jorge Ogum, julho de 2025)

Meninos no Eixão

Na memória de minhas pernas cansadas Na altura da 206 norte acabava a pedalada. No plano inclinado até minha casa Descansava os joelhos, soltava as asas. Eu, menino entre meninos, viajava a outro mundo. Sem vida, sem morte, mentira, verdade... Só vento na cara, sol na pele, Lei da Gravidade... (Jorge Ogum)

Domingo, 6h da manhã

Olhaê, o Correioooo! Acorde, leitor Que a infância roubada desfila na rua  vendendo jornal. Sem café da manhã  Amanhã incerto Reduza o peso dos braços fatigados Pés encharcados. Mãos de tinta preta. Venha saber da inflação, da transição, da vitória do Fluminense Compre logo que na próxima esquina vou me sentar e também ler a página principal Provando, aos poucos, o sabor das letras e do mundo além das ruas lamacentas. Assim vai o menino na brecha estreita das circunstâncias saltando pedras que chamam tropeços “Foi bom pra você ter trabalhado assim.” Bom era jogar bola no campinho e ler gibi.

Dia de chuva

Maria, Maria, Se você soubesse  como gosto  de ficar  na sua cama  quando chove de dia… Todo o dia, Maria, você choveria.

Little Bang

Tantos antes Muitos mais depois, talvez Neste pequeno pedaço de tempo e espaço Queimando carbono Deixando pegadas que ninguém verá (É para poucos a notoriedade dos dinossauros) O que ficará deste trilionésimo grão de nanossegundo? Pó. Esquecimento. E mais e mais e mais e mais virão Sentados em um bar tomando margarita (Que sempre existam margaritas) Fazendo as mesmas perguntas até o fim do drink

As linhas de Deus

Deus escreve reto por linhas tortas Deus escreve torto por linhas certas E a soberba humana quer dizer Até mesmo como Deus deve escrever Não seja esse humano vil pequeno A ditar a escrita do divino Escreva você mesmo seu destino Pelas linhas erradas que houver E se o acaso lhe deu a linha reta Isso não é garantia de progresso Pois enquanto o senhor tá escrevendo O diabo rabisca e faz sucesso.

Ser e ilusão

 De onde nos vem o pensamento? Aonde nos leva o coração? Somos nós um baú de sentimentos? Ou seríamos os mestres da Razão? O pensar é apenas instrumento E o que julga saber não sabe não Sem timão vamos indo contra o vento E o controle não passa de ilusão. Muito antes de nosso nascimento Em labirintos e cantos escondidos Já estava pronto este momento Que supomos termos escolhido. Nos movemos num fio de aranha E cremos a tudo controlar Mas presos à necessidade Sem escolha nos resta acreditar. E você que se julga especial Ao seu lado alguém vai reparar Também se achando tal e tal Nessa vida a regra é se achar. Até mesmo estas linhas de espanto Por alguma razão subliminar Já estavam escritas em algum canto Tive apenas que delas me livrar.

Preguiça

Subia o bicho-preguiça devagar, devagar, devagar, devagar... Distraidamente começou a divagar, divagar, divagar, divagar... E concluiu que era preciso esperar, esperar, esperar, esperar... Pois tava agindo muito antes de pensar.

Poema Seco

De minha janela O céu de Brasília em sua beleza No chão sob as árvores Desenhos de tolha de mesa. O errático voo d'uma cigarra Que em meu ombro nu encontra pouso Depois de entrar em minha casa. Sinto pela pele a aspereza esperada. E ouve-se um canto Que é mais um grito. Mas a cigarra está calada. (Jorge Ogum)

Amanheci

O sol se esgueirava pelas frestas E pequenas manchas de calor Tocavam suavemente a pele Anunciando mais um dia sem calendário. O bule de café silvava Seria a cobra descascada no esmalte? O cheiro invadia meu quarto E todos os poros da casa. A panela de barro com feijão de corda E pedaços de toucinho pouco Esperava sua vez no fogo Mas ainda é hora do café. O padeiro não passou. É cuscuz com leite.  Vou comer ligeiro. Mil aventuras me esperam no terreiro. De longe diviso uma lata de sardinha-carro E aquela manga-boi no monturo me seduz Sai bichano, deixa meu cuscuz!

Os caminhos

 Uma légua de sonhos da escola até a casa O lado esquerdo da estrada era minha fazenda O direito também Incontáveis bois e vacas e carneiros e cavalos Pastavam à beira de córregos e açudes E eram batizados com adjetivos lisonjeiros Tudo era verde e dava pamonha até no verão, que é tempo de seca E o cacimbão com água fresca A bela esposa no alpendre espera (Lá na escola ela não sabia) Um farfalhar de folhas, o que será? Na realidade, um calanguinho Preciso voltar Pois errei o caminho... (Jorge Ogum)