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Os caminhos

 Uma légua de sonhos da escola até a casa O lado esquerdo da estrada era minha fazenda O direito também Incontáveis bois e vacas e carneiros e cavalos Pastavam à beira de córregos e açudes E eram batizados com adjetivos lisonjeiros Tudo era verde e dava pamonha até no verão, que é tempo de seca E o cacimbão com água fresca A bela esposa no alpendre espera (Lá na escola ela não sabia) Um farfalhar de folhas, o que será? Na realidade, um calanguinho Preciso voltar Pois errei o caminho... (Jorge Ogum)
Seu nome sobre o meu Meu nome sob o seu Conjunção nominal Metáfora sexual Sonho literal.

O destino das sementes

Infatigáveis, lançávamos as sementes O céu dava esperança de chuva Pés de pó e cabeça d’água sonhávamos com brotos alvissareiros e colheita farta   São tantas de feijão e tantas de milho Não esqueça! Os pés encerravam nas covas as sementes E o sonho de feijão verde com nata afastava o sol quente.   À noite, rezávamos por chuva E sonhávamos com o cheiro de melões no roçado Será preciso espantar os passarinhos E os silos talvez sejam pequenos.   Mas barulho algum se ouvia na cerâmica encardida do telhado O verde não vem A vida fenece na terra seca como a criança que morre no ventre da mãe Oh, Deus, não queremos o destino das sementes!

Um dia

Um dia, não faz tempo fiz um fotograma de suas ebúrneas coxas margeadas pelas flores do vestido. Naquele tempo. Existia tempo? você chegava quase sempre depois do combinado (depois disse que eu sorria ao abrir a porta) para o jantar de um cozinheiro aprendiz. Nesse tempo, que era fora do tempo, a casa era uma ilha e você, nua em seus domínios, descobria novidades musicais. Falávamos de família, política e de cicatrizes de infância enquanto você lavava os pratos com fingida indignação. Então eu adentrava para além das margens e você voava, cabelo de fogo contra o vento amazona num cavalo alado. Foi naquele dia, não faz tempo. .