A Doce Vida dos paparazzi
As colegas de trabalho propuseram e eu topei o desafio de assistir a todos os filmes da lista 100 Filmes Essenciais publicada em 2007 pela revista Bravo!. Nunca colecionei fitas VHS ou DVDs de filmes. Quando não posso ver no cinema, recorro às locadoras. Claro que isso fica cada vez mais difícil, pois filme bom não se acha em qualquer loja, ainda mais depois da crise provocada pelo download. As locadoras estão morrendo à míngua. Mas, se as amigas topavam emprestar, por que não entrar na onda? Diligentes, montaram a lista e decidiram o que ver primeiro. E toma filme. Essas meninas são verdadeiras promotoras da cultura cinematográfica! Quem não quer conviver com gente assim? Então, vamos lá. A lista de Bravo! tem obras prá todos os gostos. Desde os títulos mais antigos até os mais recentes, nos diversos gêneros. Durante todo o ano de 2008, vimos, talvez, um terço da lista. Cada um assiste ao filme em sua própria casa. Então, sempre demora um pouquinho para que todas (os homens somos minoria no grupo) vejam o mesmo filme, ainda mais que em muitos casos há apenas uma cópia. Aproveitando essa experiência de Clube de Cinema, pretendo falar um pouco sobre os filmes que assisto. Mas o que tudo isso tem a ver com o título desta postagem? É que o último filme que vi foi La Dolce Vita (não sei porque prefiro escrever e pronunciar essa expressão em italiano. Não manjo nada dessa língua, mas é que parece ficar mais dolce) de Federico Fellini. O filme é de 1960 e mostra as aventuras (não seriam desventuras?) de Marcello: um jornalista e escritor frustrado, convivendo com os ricos e famosos de Roma. Bela obra de Fellini, embora prefira o completamente maluco Amarcord de 1973. Marcello Mastroianni interpreta o protagonista, e é a única coisa permanente durante todo o filme, afinal as pessoas, os lugares e os assuntos mudam a todo momento. Angustiado pela própria incapacidade de dar algum sentido à vida, Marcello vaga pelos ambientes requintados de Roma e se encontra com gente que representa todo tipo de estereótipo: o intelectual que parece ter uma vida perfeita, a socialite de vida vazia, a prostituta e as atrizes como a loira de Hollywood (Anita Ekberg) que protagoniza famosa cena em que se banha na Fontana de Trevi. Aliás, diga-se de passagem, os filmes da lista de Bravo! são pródigos nessas cenas que já conhecemos, já vimos alguma vez na TV ou até mesmo numa propaganda, embora não tenhamos ainda assistido ao filme. Outras cenas bem legais, para ser mais preciso (ou pedante) ontológicas, são as que Marcello sobe as escadas da Catedral de São Pedro à caça da loira deslumbrante a quem ele não consegue resistir, ou a ida com o pai a um cabaré onde o velho se diverte com as dançarinas. É a cultura do cinema, não é? Pois bem, La Dolce Vita de Marcello é doce, mas não é mole, não: nada de sucesso como escritor, um casamento horrível e mesmo as aventuras e belas mulheres não parecem preencher o seu vazio existencial. Bastar ver as viradas d'olhos de Mastroianni demonstrando um certo desinteresse por tudo que ocorre ao seu redor. Por fim, uma curiosidade. O fiel escudeiro de Marcello nas suas andanças atrás de furos de reportagem é um fotógrafo de nome Paparazzo. O cara faz tudo para conseguir uma boa foto, tal qual os conhecidos paparazzi das revistas de celebridades dos nossos tempos. Pois, então, o Paparazzo fez tão bem o seu trabalho em La Dolce Vita que seu nome passou a designar todos os fotógrafos intrusivos, como aqueles que não largam o pé da coitada da Paris Hilton ou da pobrezinha da Britney Spears, embora elas façam de tudo para evitá-los e, consequentemente, não sair nas capas. Indo mais longe, descobri com a ajuda de uma amiga que Paparazzo, segundo o Dicionário Houais, é o sobrenome de um personagem citado no romance No Mar Jônio, de George Gissing (1857-1903, escritor inglês), lido por Federico Fellini enquanto roteirizava La Dolce Vita. A Wikipédia, por sua vez, dá por Paparazzo não o sobrenome de um personagem de romance, mas do dono de um palácio que hospedou a Gissing durante sua passagem por Cantanzo, uma cidade da Calábria, na Itália. Como pude verificar no Project Gutenberg, a Wikipédia tem razão: no No Mar Jônio é, na verdade, o relato de viagem de Gissing. Pois é, La Dolce Vita dá o que falar.
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