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Mostrando postagens de 2018

Só me vejo

Passei por tenebrosos vales E vaguei pela noite sozinho. Antes, conheci a vida que era sonho Mas, quem escolhe as cartas no jogo? Hoje, embora só, sinto aquela paz E mais um pouco, e com outro sabor, talvez. Tranquilo como um lago na floresta. Forte como rio que se lança em cachoeiras. Tenho minha casa segura como o ninho do falcão. Meu coração se alegra quando as folhas ficam verdes E outro tanto quando caem secas por necessidade. Tudo é beleza. Tomado por um desejo de aperfeiçoamento Meu corpo vibra e quer fazer vibrar. Uma força que não sabia existir me impulsiona. E mesmo a odiosa injustiça parece vencível. Mas você ainda não percebeu. Estou pronto. Venha. (Jorge Ogum)

Apaixonite

A paixão é doença perigosa Que infelizmente não se cura por osmose Ela aumenta os batimentos cardíacos Faz subir a taxa de glicose E o doente pensando em sua cura Já em transe e à beira da loucura Só deseja morrer de overdose. A paixão nos embota a consciência E confunde qualquer discernimento Nos faz ver traição numa amizade E o cabra se torna ciumento Já tem tudo, mas acha que é metade Crê em lendas, se afasta da verdade Quer ser meigo, mas fica rabugento. E se o pobre enfermo de paixão Não encontra o remédio condizente Se daquele a quem ama ouve “Não” Mas insiste em nadar contra a corrente Fatalmente ele irá se afogando Mas enquanto naufraga vai pensando Que o outro lhe deve amor ardente. Se um deus ou um anjo do Além Faz unir dois doentes de paixão O desejo de ser correspondido Faz crescer inda mais a ilusão Para eles a vida é doce e mel Até mesmo o inferno vira céu Só no outro um encontra distra...

Lago e Cidade

Vivo na cidade que não é normal Pertinho dum lago artificial Água represada Desejo contido Gozo reprimido Antinatural! Por que dizer isto? Não vê a beleza? Cidade, cultura Lago, natureza. E os dois abraçados Coito original Inspirando os homens a um amor igual. Prefiro as cidades que nascem sem nexo. Que têm ruas tortas, desenho complexo. Ladeiras e esquinas são minha paixão. E paralelepípedos que cobrem o chão. E o sol que brilha no céu azulado? E a beleza torta do nosso cerrado? Palácios modernos, pura poesia! E as praças, terreiros da democracia! Não vê nossa gente a mistura que tem? E a urbe que clama: misture-se também! Pode até ser bela, mas não tem calor. Em mim não provoca todo esse amor As suas distâncias separam as gentes, que por não se amarem, não se encontrarem São indiferentes. Veja que o lago é tranquilidade A cidade é bela E beleza é verdade. Sou lago incontido Você é cidade. Estamos partidos Metade e metade. Venha reunir Desejo e vontade Abraço perfeito Natural...

Negação da poesia

O mote me vem quando não estou inspirado Se quero escrever Dá tudo errado Não tenho caneta Estou deitado Ou no chuveiro, ensaboado Eis porque não sou poeta Nem escrevo versos com rima completa Meu medo maior Nem azar nem sorte Que a musa apareça Na hora da morte. (Jorge Ogum)