Sobre o filme Billy Elliot

A estória de Billy Elliot, o menino filho de operários ingleses que vence todas as resistências e se torna bailarino, nos permite conhecer muito mais que um drama pessoal. O filme é de 2000, dirigido por Stephen Daldry.
Sob os dramas individuais se apresenta um pano de fundo coletivo (ou seria o contrário?) e podemos ver como as biografias se inserem na história. E isto é um problema sociológico fundamental.
"No discurso de ontem a primeira-ministra Margareth Thatcher referiu-se aos mineiros em greve como 'inimigos internos' após meses de confronto com a polícia..." Esta frase é dita ao fundo pela televisão enquanto Billy se prepara às escondidas para mais uma aula de balé. De que greve se fala? Qual a razão da greve?
A Inglaterra foi o primeiro país desenvolvido a colocar em prática nos anos 80, medidas político-econômicas que ficaram conhecidas como Neoliberalismo: redução da intervenção do estado na economia, cortes nos gastos sociais, privatizações e pressão sobre os sindicatos, reduzindo seu poder de ação política. O tradicional movimento sindical inglês sentiu o duro golpe desferido pelo governo, controlado naquele período pela primeira-ministra Margareth Thatcher
O diretor Stephen Daldry não deixa dúvidas quanto a sua posição em relação à política implementada pela Dama de Ferro. A avó de Billy Elliot, vagando pela casa e sem nenhuma assistência pública, é o símbolo de que o welfare state inglês não era mais o mesmo.
O filme retrata com cenas simples o contexto de pobreza e de desesperança pelo qual passavam os trabalhadores ingleses no momento em que o capitalismo mundial se reestruturava para dar lugar a uma nova matriz produtiva: a tecnológica.
O pai e o irmão de Billy, por sua vez, estão presos a um modelo antigo de organização sindical que não tinha como suportar a força dos novos tempos, enquanto a sociedade inglesa está sofrendo uma mudança política que provoca tensões só abafadas com o uso da força pelo Estado. Todos notam como a polícia se torna parte da paisagem da cidade de Durham (cenário do filme), como ela é desafiada pelos mineiros e como reage: às vezes com violência, outras com energia. Como agiria a polícia brasileira numa greve daquelas?
É muito interessante como a cena do retorno ao trabalho dos mineiros, depois da greve derrotada que durara um ano, se parece com uma das cenas finais de Germinal, filme baseado no romance homônimo de Émile Zola. Nesta obra, que retrata uma greve de operários numa mina de carvão francesa nos primórdios do capitalismo, os trabalhadores são massacrados pelo exército. Os mineiros derrotados voltam ao trabalho em um elevador que os leva para debaixo da terra, cabisbaixos. Talvez o capitalismo continue o mesmo, mudaram apenas a maquiagem.
Billy Elliot mostra também que as possibilidades de ascensão social na velha Europa são quase que totalmente fechadas, pois a subida de alguém na escala social só se dá pela criatividade, genialidade do indivíduo. Billy estudava, mas isto não lhe garantiria "subir na vida" numa sociedade onde as classes sociais se cristalizaram. Como mostraram os sociólogos da educação, a tendência é que elas se reproduzam internamente de forma que filho de mineiro seja mineiro. Billy é o Pelé, o Ronaldo que sobe pelos méritos excepcionais que possui.
O ambiente social retratado é de degradação, de frustração e de pobreza. A cena em que o pai de Billy quebra o piano para aquecer a casa na patética noite de natal é o símbolo da desesperança. Ele só percebe isto quando vê que o garoto tem futuro e tenta, sem sucesso, furar a greve: "...estamos acabados. Vamos dar uma chance ao garoto", diz o Sr. Elliot.
Depois da resistência inicial, a família e a comunidade apostaram no futuro de Billy. Por que isto ocorreu? Talvez porque apostar no garoto era alimentar a esperança de que alguém poderia sair do buraco (literalmente), das profundezas para o voo do balé.
Billy fazia balé, mas quem se equilibrava nas pontas dos dedos era o operariado inglês. Era a sociedade inglesa que estava deixando de atender seus velhos e de dar esperanças aos mais novos. Portanto, estava deixando de ser solidária com as gerações passadas e com as futuras, ficando presa ao presentismo e à lógica do mais forte. Vendo agora como a crise mundial pegou o país, talvez os ingleses estejam refletindo sobre o resultado dessas políticas.
Depois de ler essas linhas você pensará que a trama é sobre greves, operários, política...Não é. Também não é apenas um filme sobre o sonho de ser bailarino (o que faz com toques de beleza ímpar). Na verdade, trata-se de obra que permite várias leituras (inclusive esta) e é justamente aí que residem suas qualidades.

Comentários

  1. Prezado,

    Apreciei muito sua cronica sobre o filme. Daldry soube conciliar a critica histórica, social numa aperente banal história de crise familiar.

    Para mim uma das cenas mais lindas que já assisti no cinema foi aquela em que o velho Gary Lewys, interpretando o pai do Billy, num gesto desesperado e verossímel, abre ou tenta abri mão de suas convicções para salvaa seu filho do destino que todos tiveram até ali.

    Especialmente neste mundo em que vivemos, onde todos são heróis, num mundo em que não há "ninguém que confesse que uma vez foi vil" é sempre chocante quando deixamos de nos mirar no caminho da servidão e olhamos sobre nós mesmos e descobrimos o que de fato somos...

    Parabéns pelo seu blog,

    abs,

    Nilson Soares

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