Cântico dos meus cânticos

Conta a lenda que um filho de Davi
Errava pelos desertos de Israel
E que solitário como um eremita
Procurava um caminho para o Céu.

Com a vista embaçada por miragens
Do Paraíso desistia a sua alma
Quando viu bem ao longe uma ramagem
E o seu coração voltou à calma.

Num oásis, a cena imprevisível
Uma índia dormia nua e bela
À sombra de arbustos cuja forma
Parecia o salão duma capela.

Tu que ouves e acionas a Razão
E o improvável te faz até sorrir
Se à beleza da cena dizes não
Imagina o filho de Davi.

O barulho da água que brotava
E o corpo nu assim dormido ao léu
Fez-lhe crer que agora se encontrava
Não perdido, mas às portas do Céu.

E ninguém é capaz de conhecer
O que naquele oásis se passou.
E os prazeres que ele ousou viver
Logo que a selvagem acordou.

É que a  fêmea misteriosa e brejeira
Abriu-se para o filho de Davi
E exalava flor de laranjeira
Que até mesmo o Senhor pôde sentir.

Diz-se então que o deserto verdejou
E oásis deixou de ser pequeno
E o filho de Davi tornou-se rei
Do possível Paraíso Terreno.

Que explorou montanhas e riachos
E vales cercados por colunas
Penetrou em remotas cavidades
E brincou como um menino sobre dunas.

Deu-se fim ao reinado da tristeza
E a água não para de jorrar
E o mel foi servido em sobremesa

E os dois não se cansam de gozar.

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